Oct 29, 2013
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Família

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Sai daí, Betinha. Isso é coisa que se faça com uma mãe? Enfiar agulha no pescoço? Mas tá maluca? Betinha, vê se solta esse galão. Olha aí, perdemos a gasolina. A caranga morreu por aqui, nesse fim de planeta. Betinha! Cala essa matraca! Onde já se viu? Para de chutar o banco de trás! Isso, filhinha, dorme quietinha, o dedo na boca sugando, sugando… Cadê o infeliz do teu pai? Foi buscar combustível. Pudera. Serve pra alguma coisa, não é, filhin… BETINHA! Tira esse sabre do meu umbigo, tá maluca? E esses tubos de tinta guache seca no bolso? Já falei que é pra jogar fora… Agora inventou de pintar as calotas do carro, as copas das árvores, as placas de trânsito, os lacres de Coca, os caninos do guarda, os olhos do teu pai… Cadê o ignóbil do teu pai? O que é ignóbil? Lixo! Tá respondido? Lixo! Vê se para de cantar essa música irritante, Betinha, troca o disco! Lá vem ele. Ele está brilhand… Mas que é isso?! Jesus Cristo! Tira a mão da minha cara, sua maldita! Deixa eu ver, menina! Teu pai está pegando fogo! Fogo!

(Para Ana Carolina, Cristina Pereira, Norma Bengell e Arthur Braganti)

Oct 28, 2013
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Declaração

Durante a afinação da orquestra, enquanto todos se aprumavam e se sentavam e se acomodavam nos assentos aveludados, Levi resmungou:

“Estou mais interessado nos breves estrondos de tosse, nos engasgos sutis e nos espirros sufocados que sucedem durante os intervalos dos atos do que nos próprios atos.”

Aug 16, 2013
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Issa e Eduardo Orfali

No aparador, dois castiçais dispostos de maneira simétrica, sem velas. Ao lado, sóbrios jarros de onde pendem samambaias vivas, mas descuidadas. Suas pequenas folhas lanceoladas caem aos bocados por sobre as heras de mármore que enfeitam a estátua do bebê. É outono e o vento gira louco lá fora, depois do vidro. O bebê dorme sentado, encostado no seio da mãe. Ela cochila de camisola, a mão direita se acomoda debaixo da cabeça, a esquerda segura o filho – há uma lasca no dedo indicador. Da cabeleira vasta, um cacho sedoso orna a fronte tranquila.

O vento chia, o rio está revolto, há a proteção do vidro – decerto que está trincado – mas as grades prometem guardá-los do perigo: uma coroa de bronze escamoteia a fechadura intricada. A camisola leve de rendas sugere que estão aquecidos e os dois travesseiros de plumas de ganso acomodam ternos a cabeça da mulher. Está tudo muito quieto e adormecido.

As paredes exibem manchas escorridas de mofo, alguma infiltração causada pela chuva sangrou na tinta amarela que reveste a câmara. Se tomar a escada, há um porão, mas nenhum visitante ousou enfrentá-la. Está anoitecendo. E o sono de mãe e filho ressoa mais profundo em 26 de fevereiro de 1945.

(Duas norte-americanas se postam diante da imagem e se intrigam tocadas: “Mas o que diabos aconteceu com os dois?”)

No aparador, entre os castiçais sem velas, o crucifixo guarda a resposta.

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Jul 9, 2013
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A casa da vó e o meu primo surfista

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O pintor deslizava a mão grossa na parede quando o meu primo surfista me mostrou a foto da vó. O roça-roça da mão do pintor sussurrava pela casa quase vazia. Mamãe e tia Gui, a mãe do meu primo surfista, guardavam umas coisas esquecidas. Acho que o pintor queria sentir a parede — deve ser uma técnica deles de falar com elas. A foto da vó, o meu primo surfista encontrou debaixo do móvel preto da sala. De tão grande e pesadão, o móvel ficou por último. Vai ser içado da janela até a calçada. (Gosto de imaginar um míope sem óculos tomando um susto ao ver o móvel preto da sala ser içado pela janela, coçando os olhos sem acreditar e pensando que o móvel preto da sala flutua.) Mas a foto da vó é linda. O cabelo da vó, mesmo em preto-e-branco, é dourado. E a pele dela parece de leite. O meu primo surfista deve ter pensado a mesma coisa que eu, mas ele ficou calado. O pintor foi trocar de roupa pra começar o trabalho. A tia Gui e a mamãe, apinhadas de sacolas, pediram ajuda e chamaram a gente pra ir embora. O meu primo surfista escondeu a foto da vó dentro da bermuda de surfista dele. Eu fiquei calado, apesar de não achar que a bermuda do meu primo surfista seja um bom lugar pra a vó morar. 

Feb 18, 2013
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Disk água

Na pacata casa rosa, a moça, com o telefone em punho, pede um garrafão de água. Satisfeita com a própria diligência doméstica — a casa é um brilho —, senta no sofá sem manchas e liga a tevê. O entregador deve chegar em quinze minutos, portanto, tem quinze minutos livres para ver algum programa aleatório. Imagens surgem desconexas na tela, um corredor sem pernas, um desfile de escola de samba, um bebê que nasce banhado em placenta, um tigre abocanhando um gnu. A moça vê através da imagem, pensa no almoço, na colcha nova que viu em promoção, num liquidificador melhor do que o que já tem, num capacho mais arrojado, num aspirador de pó mais silencioso, na lâmpada de sessenta watts que precisa comprar. A campainha toca.

Boa tarde, senhor.

O entregador grunhe e, com um muxoxo no canto da boca, olha para o chão.

Adentram a casa — a moça guiando o entregador—, avançam pelos cômodos, chegam à cozinha. Ele larga o garrafão com enfado e limpa a testa molhada de suor. Pigarreia. Ela entende que tem ela mesma que abrir o invólucro com uma faca e passar um paninho umedecido em álcool para desinfetar a boca do garrafão. Num passo leve, mas firme, segue até o armário da cozinha, abre uma gaveta e de lá tira um faca reluzente. Alcança o garrafão e no primeiro talho no plástico azul corta o dedo. Grita. Parece ser um corte profundo, sangra escuro e de maneira caudalosa.

O entregador, distante, vê através da imagem. Inabalável, não muda de expressão, não diz nada. Passa pela moça ferida, arranca o resto do plástico azul, entorna o garrafão no filtro, cata o dinheiro em cima da mesa e vai embora deixando um cheiro acre de suor na cozinha.

 

Nov 18, 2012
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Sorte

Era Nina Simone. E sua mão na minha cintura. E seus olhos nos meus. (Aqui entra um período de um ano e meio.) Eu, no elevador, escapando das labaredas. Você, no hall de entrada, fingindo derramar peixes dourados de lágrimas. Não era Nina Simone, não era. Se fosse, era amor. Aí, você vai e tira das mangas de camisa a frase de biscoito chinês: “O amor acaba”. Meus olhos nos teus, minha mão insistente no botão, te explico enquanto as cordas vergam no fosso do elevador: Não é que o amor acaba, é que ele nunca existiu.

Aug 13, 2012
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Thank you

Vai, filha, põe a língua entre os dentes. Tenta falar a letra T e D de uma vez. É fácil. Como não consegue? É simples. Olha pra minha língua. Viu? Isso. Quase. Tenta mais uma vez. Mas como não sai?! É a coisa mais fácil do mundo! Vai, de novo. O quê? Mas vai desistir? Não, presta atenção, olha bem pra minh… Tá. Quer desistir? Tá. Tá. O problema é todo seu.

Aug 2, 2012
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Sai de mim

Jacky bota água no fogão. Wilton todo mole no colchão. Jacky prepara uma canja amorosa pro marido que, moleirão de meias, funga vendo o Globo Esporte. O celular de Jacky toca. É Paulão (quanta gente!). Descobriu que a namorada é casada! Salafrária! Vigarista! Pulha! Como pôde me trocar por um marido? Como pôde me esconder que já tem casa e comida e aliança no dedo? Sai de mim! Por favor! Mas, amor, pra ele só dou canja! Pra você o bufê é completo! Bufê? Vou te tascar uma bifa! Sua serpente! Te manca! Te alui, ordinária! Como pôde me enganar esses anos todos? Como pôde me jurar amor eterno, me idolatrar e dizer que eu era o único homem da tua vida?! Como pôde beijar cada dedo dos meus pés?! (O marido tosse tísico.) Jacky abafa o celular e acode morosa: Já vou, mozão! A canja borbulha em gordas bolhas gordurosas. Jacky, temendo que o consorte oficial desfaleça, suplicante apressa o papo: Faz isso, não, Paulão. Como vou viver sem ti? Paulão bufa tal touro guampudo do outro lado da linha: Viver? Eu quero que você morra! E desliga. Jacky apaga o fogo. Alcança a colher de concha. Enche o prato trincado e fundo. (O marido grunhe, um velho cão.) Jacky arranja a bandeja, ajeita o avental e vai servir a fumegante canja de cabeça erguida. Toma.


Jul 14, 2012
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Barraca do Nildo

Pôs na mesa a bacia fumegante. Os bichos exibiam um tom vermelho vivo, que passeava pelo rosa e laranja. Um cheiro verde de coentro subiu como fumaça. Bolhas de leite de coco dançavam brancas com outras de azeite, sem misturar. A bacia de plástico era gasta. Assim como as tábuas e os pauzinhos encardidos que serviam para destroçar o bicho. As patolas escapavam peludas, algumas bem afiadas, empertigadas, na tentativa vã de defesa, como um cacto vencido.

“Amanda, o caranguejo chegou!”

Um vento grosso moveu os cabelos úmidos da menina. Pôde sentir o gosto salgado de uma mecha grudada no canto da boca. Suja de areia, se aprumou para a mesa.

“O Nildo caprichou dessa vez.”

Norma suspirou entre uma sugada e outra. Karen, como os dedos gordurosos e as unhas pretas, concordou:

“Ave Maria.”

Um vento salgado silvou nas palhas que cobriam o teto da barraca.

“Cadê o Pedro?”

Amanda, concentrada nas vísceras cinza do bicho — são os pulmões, então é assim que sou por dentro? —, não ouviu a pergunta da mãe.

“Cadê o Pedro?”

Karen levantou afogueada, limpou as mãos nos quadris despidos.

“Minha Nossa Senhora!”

“Pedro! Pedro! Nildo, tu viu o Pedro?”

No balcão, Nildo coçou a barba, calmo. Olhou para o mar que encrespava e crescia. Um brilho castanho ricochetou nos olhos, em direção à bomba d’água:

“Faz meia hora que tá ali, tomando banho de cuia.”

May 22, 2012
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Agende sua visita com Medeiros

Medeiros está a seu dispor. Carcaças dos televisores de tubo solapam a porta da frente aos montes. Medeiros está bem, com saúde, são. Joga Sudoku, funga e estala o dedo do pé. O chato é que ninguém entra ali. Uma moça passa com o cachorrinho encoleirado. Uma senhora carrega com muito esforço um saco de verduras. O jardineiro ensimesmado do prédio ao lado pita um cigarro. Medeiros funga. Passou o caminhão do gás. Passou o carro de frutas. Passou um marmanjo montado na bicicleta. Passou uma vespa barulhenta. Medeiros estala a língua no céu da boca. Aterrissou uma maritaca. Uma papoula caiu. Um prospecto de mãe de santo voou. Medeiros desenha o número oito. Lá longe um orelhão grita.

Agende sua visita com Medeiros. Ele está a seu dispor.

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_____Um espaço de exercício.

Natércia Pontes escreve, Marcio Távora fotografa.
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