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Disk água
Na pacata casa rosa, a moça, com o telefone em punho, pede um garrafão de água. Satisfeita com a própria diligência doméstica — a casa é um brilho —, senta no sofá sem manchas e liga a tevê. O entregador deve chegar em quinze minutos, portanto, tem quinze minutos livres para ver algum programa aleatório. Imagens surgem desconexas na tela, um corredor sem pernas, um desfile de escola de samba, um bebê que nasce banhado em placenta, um tigre abocanhando um gnu. A moça vê através da imagem, pensa no almoço, na colcha nova que viu em promoção, num liquidificador melhor do que o que já tem, num capacho mais arrojado, num aspirador de pó mais silencioso, na lâmpada de sessenta watts que precisa comprar. A campainha toca.
Boa tarde, senhor.
O entregador grunhe e, com um muxoxo no canto da boca, olha para o chão.
Adentram a casa — a moça guiando o entregador—, avançam pelos cômodos, chegam à cozinha. Ele larga o garrafão com enfado e limpa a testa molhada de suor. Pigarreia. Ela entende que tem ela mesma que abrir o invólucro com uma faca e passar um paninho umedecido em álcool para desinfetar a boca do garrafão. Num passo leve, mas firme, segue até o armário da cozinha, abre uma gaveta e de lá tira um faca reluzente. Alcança o garrafão e no primeiro talho no plástico azul corta o dedo. Grita. Parece ser um corte profundo, sangra escuro e de maneira caudalosa.
O entregador, distante, vê através da imagem. Inabalável, não muda de expressão, não diz nada. Passa pela moça ferida, arranca o resto do plástico azul, entorna o garrafão no filtro, cata o dinheiro em cima da mesa e vai embora deixando um cheiro acre de suor na cozinha.

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Sorte

Era Nina Simone. E sua mão na minha cintura. E seus olhos nos meus. (Aqui entra um período de um ano e meio.) Eu, no elevador, escapando das labaredas. Você, no hall de entrada, fingindo derramar peixes dourados de lágrimas. Não era Nina Simone, não era. Se fosse, era amor. Aí, você vai e tira das mangas de camisa a frase de biscoito chinês: “O amor acaba”. Meus olhos nos teus, minha mão insistente no botão, te explico enquanto as cordas vergam no fosso do elevador: Não é que o amor acaba, é que ele nunca existiu.
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Thank you
Vai, filha, põe a língua entre os dentes. Tenta falar a letra T e D de uma vez. É fácil. Como não consegue? É simples. Olha pra minha língua. Viu? Isso. Quase. Tenta mais uma vez. Mas como não sai?! É a coisa mais fácil do mundo! Vai, de novo. O quê? Mas vai desistir? Não, presta atenção, olha bem pra minh… Tá. Quer desistir? Tá. Tá. O problema é todo seu.

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Sai de mim
Jacky bota água no fogão. Wilton todo mole no colchão. Jacky prepara uma canja amorosa pro marido que, moleirão de meias, funga vendo o Globo Esporte. O celular de Jacky toca. É Paulão (quanta gente!). Descobriu que a namorada é casada! Salafrária! Vigarista! Pulha! Como pôde me trocar por um marido? Como pôde me esconder que já tem casa e comida e aliança no dedo? Sai de mim! Por favor! Mas, amor, pra ele só dou canja! Pra você o bufê é completo! Bufê? Vou te tascar uma bifa! Sua serpente! Te manca! Te alui, ordinária! Como pôde me enganar esses anos todos? Como pôde me jurar amor eterno, me idolatrar e dizer que eu era o único homem da tua vida?! Como pôde beijar cada dedo dos meus pés?! (O marido tosse tísico.) Jacky abafa o celular e acode morosa: Já vou, mozão! A canja borbulha em gordas bolhas gordurosas. Jacky, temendo que o consorte oficial desfaleça, suplicante apressa o papo: Faz isso, não, Paulão. Como vou viver sem ti? Paulão bufa tal touro guampudo do outro lado da linha: Viver? Eu quero que você morra! E desliga. Jacky apaga o fogo. Alcança a colher de concha. Enche o prato trincado e fundo. (O marido grunhe, um velho cão.) Jacky arranja a bandeja, ajeita o avental e vai servir a fumegante canja de cabeça erguida. Toma.

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Barraca do Nildo

Pôs na mesa a bacia fumegante. Os bichos exibiam um tom vermelho vivo, que passeava pelo rosa e laranja. Um cheiro verde de coentro subiu como fumaça. Bolhas de leite de coco dançavam brancas com outras de azeite, sem misturar. A bacia de plástico era gasta. Assim como as tábuas e os pauzinhos encardidos que serviam para destroçar o bicho. As patolas escapavam peludas, algumas bem afiadas, empertigadas, na tentativa vã de defesa, como um cacto vencido.
“Amanda, o caranguejo chegou!”
Um vento grosso moveu os cabelos úmidos da menina. Pôde sentir o gosto salgado de uma mecha grudada no canto da boca. Suja de areia, se aprumou para a mesa.
“O Nildo caprichou dessa vez.”
Norma suspirou entre uma sugada e outra. Karen, como os dedos gordurosos e as unhas pretas, concordou:
“Ave Maria.”
Um vento salgado silvou nas palhas que cobriam o teto da barraca.
“Cadê o Pedro?”
Amanda, concentrada nas vísceras cinza do bicho — são os pulmões, então é assim que sou por dentro? —, não ouviu a pergunta da mãe.
“Cadê o Pedro?”
Karen levantou afogueada, limpou as mãos nos quadris despidos.
“Minha Nossa Senhora!”
“Pedro! Pedro! Nildo, tu viu o Pedro?”
No balcão, Nildo coçou a barba, calmo. Olhou para o mar que encrespava e crescia. Um brilho castanho ricochetou nos olhos, em direção à bomba d’água:
“Faz meia hora que tá ali, tomando banho de cuia.”
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Agende sua visita com Medeiros

Medeiros está a seu dispor. Carcaças dos televisores de tubo solapam a porta da frente aos montes. Medeiros está bem, com saúde, são. Joga Sudoku, funga e estala o dedo do pé. O chato é que ninguém entra ali. Uma moça passa com o cachorrinho encoleirado. Uma senhora carrega com muito esforço um saco de verduras. O jardineiro ensimesmado do prédio ao lado pita um cigarro. Medeiros funga. Passou o caminhão do gás. Passou o carro de frutas. Passou um marmanjo montado na bicicleta. Passou uma vespa barulhenta. Medeiros estala a língua no céu da boca. Aterrissou uma maritaca. Uma papoula caiu. Um prospecto de mãe de santo voou. Medeiros desenha o número oito. Lá longe um orelhão grita.
Agende sua visita com Medeiros. Ele está a seu dispor.
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Rogo
O irmão dele acampou lá por uns tempos. O apartamento ficava colado no Minhocão, e os janelões da sala exibiam o vidro trincado — tentou remediar com crepe. A cozinha em pedaços: o ralo do esgoto emanava um cheiro ruim. No andar de cima, no único quarto onde se via um colchão, sem lençol e puído, uma vela acesa para Nossa Senhora de Lourdes, a padroeira dos enfermos.

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Alento

Expedito, está adiante. Na frente do teu nariz largo. Um Golias de gaze, um bolo de cabelo crespo amarfanhado na garganta. Engole e senta direito. A vida é assim. A vida é assim. A vida é assim. Olha lá para cima. Uma nuvem se forma. Parece que vai chover. Fechou as janelas? O prédio ainda está em construção. Invadimos os escombros como ratos. Às oito da manhã começa o teco-teco, a batucada no cucuruto. Uma hora ou outra os cavaleiros avançarão nossa sala, com suas lanças entesadas, faiscando. Nos daremos as mãos, nos curvaremos em reverência diante do engulho — coraçãozinho tremelicando de medo. A vida é assim. Senta, aceita minha mão no teu cabelo crespo. Olha para baixo, olha para trás. Para de respirar. Volta e escuta a chuva lá fora. Fecha o olho. Isso.
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Caravana
A Camila me mata de rir. Não para de imitar esse papagaio. E o frio não tá ajudando, tô batendo o queixo. Acho que não vou aguentar! Uma barulheira só: aquela garota mineira nunca fecha a boca e o gordinho carioca tem uma risada estranha. Bate logo essa foto, vai! Já tô fazendo o X há tanto tempo que tô sem graça. E a Camila fica aí, com essa carinha de sonsa e gorro na cabeça, imitando o papagaio de Connecticut que sabe fazer operação matemática:
Quanto é dois mais dois, Polly?
(Aqui, voz de papagaio.)
Four!
Para, Camila! Quero sair com a boca fechada na foto, puxa vida! O Paulinho vai pensar o quê da gente? Que a gente é boba? Eu não sou bob… quá quá quá, Camila, minha barriga tá doendo, acho que vou morrer.

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Telefone

São sete e meia da manhã. A casa dorme. O telefone trina. Uma, duas, três quatro vezes. Astarita desliza de meia no assoalho. Levantou súbito, corre. Entre a cama e a mesinha do telefone, disposta ao lado do sofá, não pensa em nada. Uma luz baça do começo do dia se pronuncia nas cortinas romanas da sala. Não pense em nada. Mesmo que o desconhecido diga olá.
Esbaforido, Astarita tira o telefone do gancho e saúda um bom-dia.
Alô, a Adriana está?
Ali não morava Adriana. Astarita suspira.
Natércia Pontes escreve, Marcio Távora fotografa.
Marcio Távora fotografa, Natércia Pontes escreve. Subscribe via RSS.