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Agende sua visita com Medeiros

Medeiros está a seu dispor. Carcaças dos televisores de tubo solapam a porta da frente aos montes. Medeiros está bem, com saúde, são. Joga Sudoku, funga e estala o dedo do pé. O chato é que ninguém entra ali. Uma moça passa com o cachorrinho encoleirado. Uma senhora carrega com muito esforço um saco de verduras. O jardineiro ensimesmado do prédio ao lado pita um cigarro. Medeiros funga. Passou o caminhão do gás. Passou o carro de frutas. Passou um marmanjo montado na bicicleta. Passou uma vespa barulhenta. Medeiros estala a língua no céu da boca. Aterrissou uma maritaca. Uma papoula caiu. Um prospecto de mãe de santo voou. Medeiros desenha o número oito. Lá longe um orelhão grita.
Agende sua visita com Medeiros. Ele está a seu dispor.
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Rogo
O irmão dele acampou lá por uns tempos. O apartamento ficava colado no Minhocão, e os janelões da sala exibiam o vidro trincado — tentou remediar com crepe. A cozinha em pedaços: o ralo do esgoto emanava um cheiro ruim. No andar de cima, no único quarto onde se via um colchão, sem lençol e puído, uma vela acesa para Nossa Senhora de Lourdes, a padroeira dos enfermos.

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Alento

Expedito, está adiante. Na frente do teu nariz largo. Um Golias de gaze, um bolo de cabelo crespo amarfanhado na garganta. Engole e senta direito. A vida é assim. A vida é assim. A vida é assim. Olha lá para cima. Uma nuvem se forma. Parece que vai chover. Fechou as janelas? O prédio ainda está em construção. Invadimos os escombros como ratos. Às oito da manhã começa o teco-teco, a batucada no cucuruto. Uma hora ou outra os cavaleiros avançarão nossa sala, com suas lanças entesadas, faiscando. Nos daremos as mãos, nos curvaremos em reverência diante do engulho — coraçãozinho tremelicando de medo. A vida é assim. Senta, aceita minha mão no teu cabelo crespo. Olha para baixo, olha para trás. Para de respirar. Volta e escuta a chuva lá fora. Fecha o olho. Isso.
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Caravana
A Camila me mata de rir. Não para de imitar esse papagaio. E o frio não tá ajudando, tô batendo o queixo. Acho que não vou aguentar! Uma barulheira só: aquela garota mineira nunca fecha a boca e o gordinho carioca tem uma risada estranha. Bate logo essa foto, vai! Já tô fazendo o X há tanto tempo que tô sem graça. E a Camila fica aí, com essa carinha de sonsa e gorro na cabeça, imitando o papagaio de Connecticut que sabe fazer operação matemática:
Quanto é dois mais dois, Polly?
(Aqui, voz de papagaio.)
Four!
Para, Camila! Quero sair com a boca fechada na foto, puxa vida! O Paulinho vai pensar o quê da gente? Que a gente é boba? Eu não sou bob… quá quá quá, Camila, minha barriga tá doendo, acho que vou morrer.

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Telefone

São sete e meia da manhã. A casa dorme. O telefone trina. Uma, duas, três quatro vezes. Astarita desliza de meia no assoalho. Levantou súbito, corre. Entre a cama e a mesinha do telefone, disposta ao lado do sofá, não pensa em nada. Uma luz baça do começo do dia se pronuncia nas cortinas romanas da sala. Não pense em nada. Mesmo que o desconhecido diga olá.
Esbaforido, Astarita tira o telefone do gancho e saúda um bom-dia.
Alô, a Adriana está?
Ali não morava Adriana. Astarita suspira.
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Sombra
No depósito do sr. B, uma sombra se recolhe todas as noites. Nenhum funcionário atinou com sua existência. O trabalho de estivador corre modorrento durante o dia — os homens cospem no chão — e, à noite, quando os portões são cerrados, a sombra surge dos cantos e se aninha entre os pacotes de lonas dos quais desconhece o conteúdo.
A sombra não fala a língua dos homens, mas tem dimensões dos homens e um andar elegante de cavalheiro. É tampouco fantasma. É sombra de ninguém. Este ninguém tem sentimentos e, todas as noites, antes de se aninhar nos pacotes encardidos, chora uma lágrima de poeira sem sabe por quê.
A sombra é só e deita a cabeça no pacote duro. As treliças do depósito estalam, alguns morcegos gritam e a sombra soluça. Ela chora pouco até adormecer.
Quando um raio de sol entra por uma fresta do telhado e os passarinhos já estão piando em profusão, a sombra se dissolve em nódoa de parede, poeira, restos visguentos, antes que o primeiro estivador abra os portões do depósito do sr. B.

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Diagnóstico
O trem chacoalhava em direção a Paraíso. Fagundes abria o envelope com as mãos trêmulas, de frio. As alças suspensas no teto estavam tão frias, assim como os contornos das cadeiras e as hediondas portas automáticas, que podia sentir seu coração parar. O exame gaguejou uma série de termos incompreensíveis, e, quando estacionou na palavra miocardite, Fagundes soube que havia chegado ao Paraíso.

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Estilhaço

Santa paz da Liberdade. Senhora Ayumi e senhor Ryuu velam o fim do dia no tique-taque reconfortante do relógio de plástico suspenso na parede da cozinha.
Senhor Ryuu mal olha sua senhora nos olhos, como se o rasgado das pálpebras lanhasse acidentalmente seu rosto. Já a senhora Ayumi, discreta, sofre constantes crises de soluço, que trata com goladas entusiasmadas de suco artificial de maracujá.
O casal de nisseis mantém uma venda de doces há trinta anos e os dois estão casados há 35. Não tiveram filhos, não viajaram, senhora Ayumi jamais esteve com outro homem: a casa e a venda de doces são ambas propriedades do pequeno casal.
(O soluço súbito ataca e a senhora Ayumi corre em direção à cozinha. Uma talagada comprida de suco fluorescente resolve o contratempo. Senhora Ayumi, com o olhar petrificado no relógio, acompanha o ponteiro dos segundos, como se uma cobra empertigada para o ataque. O copo vazio cai de suas mãos sobre o piso de porcelanato frio. Suplício.)
Ademais, tudo corre como de costume. Já é tarde da noite, e o senhor Ryuu procura, sob as cobertas, as coxas ressequidas de sua senhora assustada e discreta.
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Crime
Parati, 1973. O tio boia de barriga para cima. A enseada tilinta sob o sol esmaecido. A poucos metros dali, famílias reúnem seus pertences em sacolas coloridas; as crianças calçam as chinelas, as mulheres vestem as saídas de banho, os homens avançam em direção aos carros. Um vento frio chacoalha a água do mar que forma lentas ondulações. Todos a postos, e a mãe dá-se conta de que o caçula sumiu. Mãos para cima e olhos estupefatos. Depois de uma sequencia de chamados estridentes − os erres evidenciados do nome Artur −, a prima mais velha, desvelando uma pedra, encontra o menino tentando encaçapar um peixinho com a mão.
Finalmente, todos partem. E o sol também. Mas o tio continua boiando n’água. Até que uma gaivota, bicando o nariz redondo, inicie o que virá a ser um banquete suculento.

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Paisagem

A luz incide sobre a cabeça quente. Faz dias, meses, tenta dissolver o mistério. Como encaixar um acontecimento no outro? A que forma esse contorno pertence? Ali é o início de uma picada ao castelo? Montanhas verdes, céus de marshmallow. O suspeito deixou sequer um fio para contar história. Atrás do portão há um dragão bufante? O homem de cabeça quente, resoluto, insiste, resiste. As horas derretem. As cores estão esmaecidas. Não se sabe o que é mata, o que é solo, o que é pele. Ele pisca os olhos e, de relance, suspira: encontra a peça que encaixa.
Natércia Pontes escreve, Marcio Távora fotografa.
Marcio Távora fotografa, Natércia Pontes escreve. Subscribe via RSS.