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Alento

Expedito, está adiante. Na frente do teu nariz largo. Um Golias de gaze, um bolo de cabelo crespo amarfanhado na garganta. Engole e senta direito. A vida é assim. A vida é assim. A vida é assim. Olha lá para cima. Uma nuvem se forma. Parece que vai chover. Fechou as janelas? O prédio ainda está em construção. Invadimos os escombros como ratos. Às oito da manhã começa o teco-teco, a batucada no cucuruto. Uma hora ou outra os cavaleiros avançarão nossa sala, com suas lanças entesadas, faiscando. Nos daremos as mãos, nos curvaremos em reverência diante do engulho — coraçãozinho tremelicando de medo. A vida é assim. Senta, aceita minha mão no teu cabelo crespo. Olha para baixo, olha para trás. Para de respirar. Volta e escuta a chuva lá fora. Fecha o olho. Isso.
Natércia Pontes escreve, Marcio Távora fotografa.
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