<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" version="2.0"><channel><atom:link rel="hub" href="http://tumblr.superfeedr.com/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"/><description>_____Um espaço de exercício.

Natércia Pontes escreve, Marcio Távora fotografa.
Marcio Távora fotografa, Natércia Pontes escreve.</description><title>Lugares Estranhos</title><generator>Tumblr (3.0; @estudoonze)</generator><link>http://estudoonze.tumblr.com/</link><item><title>Disk água
Na pacata casa rosa, a moça, com o telefone em punho, pede um garrafão de água. Satisfeita...</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;Disk água&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Na pacata casa rosa, a moça, com o telefone em punho, pede um garrafão de água. Satisfeita com a própria diligência doméstica — a casa é um brilho —, senta no sofá sem manchas e liga a tevê. O entregador deve chegar em quinze minutos, portanto, tem quinze minutos livres para ver algum programa aleatório. Imagens surgem desconexas na tela, um corredor sem pernas, um desfile de escola de samba, um bebê que nasce banhado em placenta, um tigre abocanhando um gnu. A moça vê através da imagem, pensa no almoço, na colcha nova que viu em promoção, num liquidificador melhor do que o que já tem, num capacho mais arrojado, num aspirador de pó mais silencioso, na lâmpada de sessenta watts que precisa comprar. A campainha toca.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;em&gt;Boa tarde, senhor.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O entregador grunhe e, com um muxoxo no canto da boca, olha para o chão.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Adentram a casa — a moça guiando o entregador—, avançam pelos cômodos, chegam à cozinha. Ele larga o garrafão com enfado e limpa a testa molhada de suor. Pigarreia. Ela entende que tem ela mesma que abrir o invólucro com uma faca e passar um paninho umedecido em álcool para desinfetar a boca do garrafão. Num passo leve, mas firme, segue até o armário da cozinha, abre uma gaveta e de lá tira um faca reluzente. Alcança o garrafão e no primeiro talho no plástico azul corta o dedo. Grita. Parece ser um corte profundo, sangra escuro e de maneira caudalosa.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O entregador, distante, vê através da imagem. Inabalável, não muda de expressão, não diz nada. Passa pela moça ferida, arranca o resto do plástico azul, entorna o garrafão no filtro, cata o dinheiro em cima da mesa e vai embora deixando um cheiro acre de suor na cozinha.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt; &lt;img src="http://media.tumblr.com/1c0a6be546bdbc6218762871e732d945/tumblr_inline_mifcm268gX1qz4rgp.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/43405870143</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/43405870143</guid><pubDate>Mon, 18 Feb 2013 11:32:35 -0500</pubDate></item><item><title>Sorte</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_mdpktwPCLk1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Era Nina Simone. E sua mão na minha cintura. E seus olhos nos meus. (Aqui entra um período de um ano e meio.) Eu, no elevador, escapando das labaredas. Você, no hall de entrada, fingindo derramar peixes dourados de lágrimas. Não era Nina Simone, não era. Se fosse, era amor. Aí, você vai e tira das mangas de camisa a frase de biscoito chinês: “O amor acaba”. Meus olhos nos teus, minha mão insistente no botão, te explico enquanto as cordas vergam no fosso do elevador: Não é que o amor acaba, é que ele nunca existiu.&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/36027698128</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/36027698128</guid><pubDate>Sun, 18 Nov 2012 19:18:29 -0500</pubDate></item><item><title>Thank you</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;em&gt;Vai, filha, põe a língua entre os dentes. Tenta falar a letra T e D de uma vez. É fácil. Como não consegue? É simples. Olha pra minha língua. Viu? Isso. Quase. Tenta mais uma vez. Mas como não sai?! É a coisa mais fácil do mundo! Vai, de novo. O quê? Mas vai desistir? Não, presta atenção, olha bem pra minh&amp;#8230; Tá. Quer desistir? Tá. Tá. O problema é todo seu.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_m8q45jbgkG1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/29380592226</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/29380592226</guid><pubDate>Mon, 13 Aug 2012 22:28:00 -0400</pubDate></item><item><title>Sai de mim</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;Jacky bota água no fogão. Wilton todo mole no colchão. Jacky prepara uma canja amorosa pro marido que, moleirão de meias, funga vendo o Globo Esporte. O celular de Jacky toca. É Paulão (quanta gente!). Descobriu que a namorada é casada! Salafrária! Vigarista! Pulha! Como pôde me trocar por um marido? Como pôde me esconder que já tem casa e comida e aliança no dedo? Sai de mim! Por favor! Mas, amor, pra ele só dou canja! Pra você o bufê é completo! &lt;/span&gt;&lt;span&gt;Bufê? Vou te tascar uma bifa! Sua serpente! Te manca! Te alui, ordinária! Como pôde me enganar esses anos todos? Como pôde me jurar amor eterno, me idolatrar e dizer que eu era o único homem da tua vida?! Como pôde beijar cada dedo dos meus pés?! (O marido tosse tísico.) Jacky abafa o celular e acode morosa: Já vou, mozão! A canja borbulha em gordas bolhas gordurosas. Jacky, temendo que o consorte oficial desfaleça, suplicante apressa o papo: Faz isso, não, Paulão. Como vou viver sem ti? Paulão bufa tal touro guampudo do outro lado da linha: Viver? Eu quero que você morra! E desliga. Jacky apaga o fogo. Alcança a colher de concha. Enche o prato trincado e fundo. (O marido grunhe, um velho cão.) Jacky arranja a bandeja, ajeita o avental e vai servir a fumegante canja de cabeça erguida. Toma.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_m85ct3FcJd1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;br/&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/28579653727</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/28579653727</guid><pubDate>Thu, 02 Aug 2012 17:24:00 -0400</pubDate></item><item><title>Barraca do Nildo</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_m76i7eO6P81qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Pôs na mesa a bacia fumegante. Os bichos exibiam um tom vermelho vivo, que passeava pelo rosa e laranja. Um cheiro verde de coentro subiu como fumaça. Bolhas de leite de coco dançavam brancas com outras de azeite, sem misturar. A bacia de plástico era gasta. Assim como as tábuas e os pauzinhos encardidos que serviam para destroçar o bicho. As patolas escapavam peludas, algumas bem afiadas, empertigadas, na tentativa vã de defesa, como um cacto vencido.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;“Amanda, o caranguejo chegou!”&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Um vento grosso moveu os cabelos úmidos da menina. Pôde sentir o gosto salgado de uma mecha grudada no canto da boca. Suja de areia, se aprumou para a mesa.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;“O Nildo caprichou dessa vez.”&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Norma suspirou entre uma sugada e outra. Karen, como os dedos gordurosos e as unhas pretas, concordou:&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;“Ave Maria.”&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Um vento salgado silvou nas palhas que cobriam o teto da barraca.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;“Cadê o Pedro?”&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Amanda, concentrada nas vísceras cinza do bicho — são os pulmões, então é assim que sou por dentro? —, não ouviu a pergunta da mãe.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;“Cadê o Pedro?”&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Karen levantou afogueada, limpou as mãos nos quadris despidos.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;“Minha Nossa Senhora!”&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;“Pedro! Pedro! Nildo, tu viu o Pedro?”&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;No balcão, Nildo coçou a barba, calmo. Olhou para o mar que encrespava e crescia. Um brilho castanho ricochetou nos olhos, em direção à bomba d’água:&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;“Faz meia hora que tá ali, tomando banho de cuia.”&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/27229437753</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/27229437753</guid><pubDate>Sat, 14 Jul 2012 21:45:33 -0400</pubDate></item><item><title>Agende sua visita com Medeiros</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_m4g4abIqpx1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Medeiros está a seu dispor. Carcaças dos televisores de tubo solapam a porta da frente aos montes. Medeiros está bem, com saúde, são. Joga Sudoku, funga e estala o dedo do pé. O chato é que ninguém entra ali. Uma moça passa com o cachorrinho encoleirado. Uma senhora carrega com muito esforço um saco de verduras. O jardineiro ensimesmado do prédio ao lado pita um cigarro. Medeiros funga. Passou o caminhão do gás. Passou o carro de frutas. Passou um marmanjo montado na bicicleta. Passou uma vespa barulhenta. Medeiros estala a língua no céu da boca. Aterrissou uma maritaca. Uma papoula caiu. Um prospecto de mãe de santo voou. Medeiros desenha o número oito. Lá longe um orelhão grita.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Agende sua visita com Medeiros. Ele está a seu dispor.&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/23569305196</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/23569305196</guid><pubDate>Tue, 22 May 2012 18:39:00 -0400</pubDate></item><item><title>Rogo</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;O irmão dele acampou lá por uns tempos. O apartamento ficava colado no Minhocão, e os janelões da sala exibiam o vidro trincado — tentou remediar com crepe. A cozinha em pedaços: o ralo do esgoto emanava um cheiro ruim. No andar de cima, no único quarto onde se via um colchão, sem lençol e puído, uma vela acesa para Nossa Senhora de Lourdes, a padroeira dos enfermos.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_m43pjuPoTm1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/23153343860</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/23153343860</guid><pubDate>Wed, 16 May 2012 01:51:00 -0400</pubDate></item><item><title>Alento</title><description>&lt;p&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_m2c4skH60G1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Expedito, está adiante. Na frente do teu nariz largo. Um Golias de gaze, um bolo de cabelo crespo amarfanhado na garganta. Engole e senta direito. A vida é assim. A vida é assim. A vida é assim. Olha lá para cima. Uma nuvem se forma. Parece que vai chover. Fechou as janelas? O prédio ainda está em construção. Invadimos os escombros como ratos. Às oito da manhã começa o teco-teco, a batucada no cucuruto. Uma hora ou outra os cavaleiros avançarão nossa sala, com suas lanças entesadas, faiscando. Nos daremos as mãos, nos curvaremos em reverência diante do engulho — coraçãozinho tremelicando de medo. A vida é assim. Senta, aceita minha mão no teu cabelo crespo. Olha para baixo, olha para trás. Para de respirar. Volta e escuta a chuva lá fora. Fecha o olho. Isso.&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/20924066222</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/20924066222</guid><pubDate>Wed, 11 Apr 2012 17:54:00 -0400</pubDate></item><item><title>Caravana</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;A Camila me mata de rir. Não para de imitar esse papagaio. E o frio não tá ajudando, tô batendo o queixo. Acho que não vou aguentar! Uma barulheira só: aquela garota mineira nunca fecha a boca e o gordinho carioca tem uma risada estranha. Bate logo essa foto, vai! Já tô fazendo o X há tanto tempo que tô sem graça. E a Camila fica aí, com essa carinha de sonsa e gorro na cabeça, imitando o papagaio de Connecticut que sabe fazer operação matemática:&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;em&gt;Quanto é dois mais dois, Polly? &lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;(Aqui, voz de papagaio.)&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;em&gt;Four!&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Para, Camila! Quero sair com a boca fechada na foto, puxa vida! O Paulinho vai pensar o quê da gente? Que a gente é boba? Eu não sou bob&amp;#8230; quá quá quá, Camila, minha barriga tá doendo, acho que vou morrer.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_lyvutvDJaz1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/17043567858</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/17043567858</guid><pubDate>Sat, 04 Feb 2012 14:15:00 -0500</pubDate></item><item><title>Telefone</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_lyq4jhoEky1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;São sete e meia da manhã. A casa dorme. O telefone trina. Uma, duas, três quatro vezes. Astarita desliza de meia no assoalho. Levantou súbito, corre. Entre a cama e a mesinha do telefone, disposta ao lado do sofá, não pensa em nada. Uma luz baça do começo do dia se pronuncia nas cortinas romanas da sala. Não pense em nada. Mesmo que o desconhecido diga olá.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Esbaforido, Astarita tira o telefone do gancho e saúda um bom-dia.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;em&gt;Alô, a Adriana está?&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Ali não morava Adriana. Astarita suspira.&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/16868570683</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/16868570683</guid><pubDate>Wed, 01 Feb 2012 11:59:55 -0500</pubDate></item><item><title>Sombra</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;No depósito do sr. B, uma sombra se recolhe todas as noites. Nenhum funcionário atinou com sua existência. O trabalho de estivador corre modorrento durante o dia — os homens cospem no chão — e, à noite, quando os portões são cerrados, a sombra surge dos cantos e se aninha entre os pacotes de lonas dos quais desconhece o conteúdo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;A sombra não fala a língua dos homens, mas tem dimensões dos homens e um andar elegante de cavalheiro. É tampouco fantasma. É sombra de ninguém. Este ninguém tem sentimentos e, todas as noites, antes de se aninhar nos pacotes encardidos, chora uma lágrima de poeira sem sabe por quê.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;A sombra é só e deita a cabeça no pacote duro. As treliças do depósito estalam, alguns morcegos gritam e a sombra soluça. Ela chora pouco até adormecer.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Quando um raio de sol entra por uma fresta do telhado e os passarinhos já estão piando em profusão, a sombra se dissolve em nódoa de parede, poeira, restos visguentos, antes que o primeiro estivador abra os portões do depósito do sr. B.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_lxpw6dsV8A1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/15757938028</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/15757938028</guid><pubDate>Thu, 12 Jan 2012 22:25:00 -0500</pubDate></item><item><title>Diagnóstico</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;O trem chacoalhava em direção a Paraíso. Fagundes abria o envelope com as mãos trêmulas, de frio. As alças suspensas no teto estavam tão frias, assim como os contornos das cadeiras e as hediondas portas automáticas, que podia sentir seu coração parar. O exame gaguejou uma série de termos incompreensíveis, e, quando estacionou na palavra &lt;em&gt;miocardite&lt;/em&gt;, Fagundes soube que havia chegado ao Paraíso.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_lxkb2ftAW61qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/15600751119</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/15600751119</guid><pubDate>Mon, 09 Jan 2012 22:02:00 -0500</pubDate></item><item><title>Estilhaço</title><description>&lt;p&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_lvpb1yOnXV1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;Santa paz da Liberdade. Senhora Ayumi e senhor Ryuu velam o fim do dia no tique-taque reconfortante do relógio de plástico suspenso na parede da cozinha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;Senhor Ryuu mal olha sua senhora nos olhos, como se o rasgado das pálpebras lanhasse acidentalmente seu rosto. Já a senhora Ayumi, discreta, sofre constantes crises de soluço, que trata com goladas entusiasmadas de suco artificial de maracujá.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;O casal de nisseis mantém uma venda de doces há trinta anos e os dois estão casados há 35. Não tiveram filhos, não viajaram, senhora Ayumi jamais esteve com outro homem: a casa e a venda de doces são ambas propriedades do pequeno casal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;(O soluço súbito ataca e a senhora Ayumi corre em direção à cozinha. Uma talagada comprida de suco fluorescente resolve o contratempo. Senhora Ayumi, com o olhar petrificado no relógio, acompanha o ponteiro dos segundos, como se uma cobra empertigada para o ataque. O copo vazio cai de suas mãos sobre o piso de porcelanato frio. Suplício.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;Ademais, tudo corre como de costume. Já é tarde da noite, e o senhor Ryuu procura, sob as cobertas, as coxas ressequidas de sua senhora assustada e discreta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/13749075159</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/13749075159</guid><pubDate>Sun, 04 Dec 2011 17:42:00 -0500</pubDate></item><item><title>Crime</title><description>&lt;p&gt;Parati, 1973. O tio boia de barriga para cima. A enseada tilinta sob o sol esmaecido. A poucos metros dali, famílias reúnem seus pertences em sacolas coloridas; as crianças calçam as chinelas, as mulheres vestem as saídas de banho, os homens avançam em direção aos carros. Um vento frio chacoalha a água do mar que forma lentas ondulações. Todos a postos, e a mãe dá-se conta de que o caçula sumiu. Mãos para cima e olhos estupefatos. Depois de uma sequencia de chamados estridentes − os erres evidenciados do nome Artur −, a prima mais velha, desvelando uma pedra, encontra o menino tentando encaçapar um peixinho com a mão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Finalmente, todos partem. E o sol também. Mas o tio continua boiando n’água. Até que uma gaivota, bicando o nariz redondo, inicie o que virá a ser um banquete suculento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_luon830G9f1qgnexu.png"/&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/12821115400</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/12821115400</guid><pubDate>Mon, 14 Nov 2011 22:34:00 -0500</pubDate></item><item><title>Paisagem</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_luek2a8GDH1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;A luz incide sobre a cabeça quente. Faz dias, meses, tenta dissolver o mistério. Como encaixar um acontecimento no outro? A que forma esse contorno pertence? Ali é o início de uma picada ao castelo? Montanhas verdes, céus de marshmallow. O suspeito deixou sequer um fio para contar história. Atrás do portão há um dragão bufante? O homem de cabeça quente, resoluto, insiste, resiste. As horas derretem. As cores estão esmaecidas. Não se sabe o que é mata, o que é solo, o que é pele. Ele pisca os olhos e, de relance, suspira: encontra a peça que encaixa.&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/12559523865</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/12559523865</guid><pubDate>Wed, 09 Nov 2011 11:49:00 -0500</pubDate></item><item><title>Oráculo</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Testemunha de esguelha. Uma peça grosseira de metal. Um beijo indecoroso por detrás das astromélias. Ela, casada. Ele, também. Infelicidade esparramada no edredom para os dois lados. Affair de escritório, mas amor. Vão casar nunca. No Leblon, o leão pítia de Delfos bafeja solene: aqui só há covardia e plantas. Covardia e plantas.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_ltnommsbqr1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/11939296924</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/11939296924</guid><pubDate>Wed, 26 Oct 2011 00:32:52 -0400</pubDate></item><item><title>Amém</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;A mãe achou esquisito o carrão de carregar defunto na garagem de casa. Não ousava perguntar ao filho o que significava aquela geringonça toda porque ele era muito bravo. Contentou-se em futricar na gaveta do criado-mudo e descobrir alguns documentos de identificação que não eram dele. José Galvão de Souza. Maria dos Anjos Pereira. Camila Hugo Fortes. Quem são essas pessoas que meu filho esconde de mim? Madrugada adentro e acordada, a mãe resolve ligar para o pastor e desabafar, tirar do peito esse saco plástico de supermercado que a impede de existir. Será que meu filho é ladrão, pastor? O pastor explica que é culpa do Mal e que o filho dele é só mais uma vítima do cramunhão. Um silêncio ao vivo se espalha na tevê. O pastor olha nos olhos da câmera fazendo sobrancelhas horizontais de convicção. A mãe perde as palavras, suspira, agradece e se despede com um trêmulo amém.&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_lqi6074bmR1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/9387611858</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/9387611858</guid><pubDate>Thu, 25 Aug 2011 17:21:00 -0400</pubDate></item><item><title>Socorro</title><description>&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_llatbge5JL1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;br/&gt;&lt;/span&gt;
&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;Seguro o punhal de prata com a mão direita. Enfio-o no peito porque sou eu mesma a vampira. O sangue escorre grosso e doce. Melo o dedo, infância, mel Karo. Estou suando frio sob o piso de madeira arranhada. Eu grito, Francisco, Francisco. As minhas têmporas estão úmidas, a minha garganta, seca. Francisco vem de pantufas e me arranca o punhal. Do buraco sangrado no peito surgem caninos amarelecidos: a boca de um peixe voraz — o rio corre escuro e revolto, as águas sujas ricocheteiam as pedras lodosas e o pescador negro mergulha para a morte. Francisco derrama uma colher de sal na minha segunda boca, passa a mão na minha testa fria, sopra suavemente sobre meus olhos e pergunta com voz doce de avó:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;— &lt;em&gt;Quer ir pro hospital?&lt;/em&gt;&lt;span&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/5547985585</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/5547985585</guid><pubDate>Mon, 16 May 2011 13:16:40 -0400</pubDate></item><item><title>Milton Nascimento</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;em&gt;Tia, quem é Milton Nascimento? Querido, é um cantor de Minas Gerais que tem voz de anjo. Quando ele canta as nuvens dançam e os pássaros traçam anéis de Moebius no céu. Tia, o que é anéis de Moebius? É um desenho assim, ó: &lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;em&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_ll9uf6dc6L1qgnexu.jpg"/&gt;&lt;br/&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/5536676356</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/5536676356</guid><pubDate>Mon, 16 May 2011 00:43:00 -0400</pubDate></item><item><title>Menino de Ouro</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;Tiago olhou para o espelho. Pensou, estou mais bonito do que nunca. Os olhos ainda intumescidos, as bolsas avantajadas. Lavou o rosto e molhou o cabelo, puxando-o para cima. Fez uma concha com a mão para levar um pouco de água até à boca. Bochechou contente. Vestiu uma camisa amarela, calçou as chinelas encardidas. Avançou até a porta, bateu-a e desceu galopante três andares de escadas. Cumprimentou o porteiro com um aceno efusivo. O dia ia embora. A brisa dançava morna. Tiago deixou a portaria e sumiu em direção ao pôr-do-sol. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;img src="http://media.tumblr.com/tumblr_lkxl12qOc61qgnexu.jpg"/&gt;&lt;br/&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estudoonze.tumblr.com/post/5334061190</link><guid>http://estudoonze.tumblr.com/post/5334061190</guid><pubDate>Mon, 09 May 2011 09:50:09 -0400</pubDate></item></channel></rss>
